Enfim, a chave do emagrecimento

POR Fábio Marton 

Pesquisa revolucionária descobriu o mecanismo genético que faz armazenar gordura – e conseguiu desligá-lo


Um estudo do Massachusetts Institute of Technology - o famoso MIT - conseguiu revelar, de uma vez por todas, o que faz algumas pessoas terem tendência a serem gordas, outras, magras. E foi capaz de, em células humanas e em ratos vivos, alterar essa tendência.
É aquela velha história. Todo almoço, seu colega de trabalho faz aquele vulcão havaiano de arroz e feijão, cercado por um mar de torresmo e nenhuma salada à vista. Levantar copo é o único exercício que ele faz, e ainda assim mantém o porte de um galgo. Você, por outro lado, está mais para buldogue. Apesar das horas na esteira, parece ter a capacidade mágica de transformar os 20 gramas de um brigadeiro em dois quilos de culpa.

Isso não é mito. Já se sabia, desde 2007, que a chave está nos genes, numa região chamada FTO. Isso faz com que algumas pessoas tenham um organismo pão-duro, sempre disposto a acumular mais e mais, enquanto outras gastam como adolescente no shopping em dia de mesada.

O caso é que, desde a descoberta, os cientistas estavam olhando para o lado errado. "Muitos estudos tentaram ligar a região FTO com circuitos cerebrais que controlam o apetite ou a propensão a se exercitar", afirma Melina Claussnitzer, a principal autora. "Nossos resultados indicam que a região associada à obesidade atua primariamente como um progenitor de adipócitos, de uma maneira independente do cérebro."

Adipócitos são as células que armazenam gordura. Mas elas também têm a capacidade de queimá-la para produzir calor. Quando a segunda parte está em ação, as pessoas tendem a emagrecer. A diferença entre ser magro e gordo, de acordo com a pesquisa, é uma única letra em um gene na região FTO. Quando ela é um T (timina), as células queimam energia. Quando ela é um C (citosina), essa capacidade é suprimida. Isso funciona através da ativação ou desativação entre dois genes distantes, o IRX3 e o IRX5.

Os cientistas então testaram mudar essa letra em células de gordura tiradas de europeus saudáveis, com ou sem risco de obesidade. O resultado foi que as células brancas, que armazenam gordura, transformaram-se em células "beges", que queimam. Em ratos, a mudança deu a eles "resistência completa" a uma dieta hipercalórica.

É revolucionário, mas ainda longe de ir para a farmácia. Mudar os genes em pessoas vivas ainda é algo experimental e controverso. Mas é um brutal avanço em nossa compreensão do problema da obesidade. Recentemente, outro estudo revelou que, através de estresse constante - no caso,  por meio de queimaduras em amplas regiões do corpo - é possível também transformar as células brancas em beges.



Fonte:

Obesity breakthrough: Metabolic master switch prompts fat cells to store or burn fat, MIT via ScienceDaily

Parque das desilusões: Dismaland, a Disney obscura de Banksy

POR Jessica Soares


Quem estiver de passagem pela Inglaterra provavelmente vai ter dificuldades de olhar para o icônico castelo da Disney novamente sem sentir um leve desconforto. Usando como pretexto uma suposta gravação de um filme hollywoodiano, o misterioso grafiteiro, pintor e ativista político Bansky ergueu em segredo uma versão bem mais sombria do parque de diversões mais visitado do mundo. Com mais de 10 mil m², o enorme "parque de estupeficações" está localizado em Weston-super-Mare, em um resort à beira-mar fechado desde 2000, no condado de Somerset.
dismalandReprodução/Instagram/idismaland_uk
Batizado de Dismaland (trocadilho com o nome do parque original que quer dizer, em tradução livre, Terra do Desalento), o projeto do artista visual subverte os ícones do "lugar mais feliz do mundo", deslocando-os para um cenário que pouco lembra o ambiente de alegria engarrafada da terra do Mickey. Segundo o artista, trata-se de "um parque temático de família, não apropriado para criancinhas... Uma celebração de arte, diversões e anarquismo básico".


Aberto na quart-feira, 19 de agosto, o parque subversivo conta com trabalhos de 58 outros artistas, como Bill Barminski, Jenny Holzer, Caitlin Cherry, Polly Morgan, Jimmy Cauty, Josh Keyes, Mike Ross, David Shrigley, Bäst, Espo e Damien Hirst. As atrações - pouco apropriadas para baixinhos - incluem um acidente fatal envolvendo a carruagem de abóbora da Cinderela sendo bombardeada por fotos de paparazzi (uma criação do próprio Banksy), um ceifador dirigindo carrinhos bate-bate (ao som de Staying Alive, é claro), uma Pequena Sereia distorcida observando um lago fétido. O parque também vai contar com exibições de filmes e shows das bandas Pussy Riot, Run the Jewels e Massive Attack.


Segundo o artista, muitas das obras exigem a participação do público. "Uma princesa morta só está completa quando cercada por multidões em choque munidas com suas câmeras. A diversão só está completa quando se tem a oportunidade de fotografar a si mesmo fazendo uma expressão de espanto quando uma baleia assassina salta de um vaso sanitário", alfinetou o artista.


Quem quiser conferir de perto o parque e as obras tem até o dia 27 de setembro, por um preço camarada: os ingressos são vendidos por 4,70 libras (cerca de 25 reais), uma barganha perto dos valores praticados nas terras da alegria.

Fonte:

BBC, Flavorwire, The Guardian

A guerra sobre a qual você nunca ouviu falar

POR Priscila Bellini 

O Iêmen está à beira de uma guerra civil e nós mal sabemos onde fica o país, mesmo depois de meses de bombardeios. A SUPER explica o que está acontecendo por lá.
Sanaa, capital do Iêmen, antes dos ataques

1) Quão ruim está a situação por lá?

Muito. O acesso à água potável é quase impossível. Os hospitais não funcionam por falta de energia elétrica, de leitos, de remédios. Metade da população, cerca de 13 milhões de pessoas, não tem acesso à água potável. Mais de 9 milhões de crianças precisam de ajuda emergencial, segundo a Unicef, e cerca de 400 morreram durante o conflito. Quando a ONU propõe uma trégua, ela não é respeitada. Construções consideradas patrimônio mundial, com 2500 anos de idade, foram destruídas. Desde o começo do conflito no Iêmen, os serviços básicos para a população só diminuem, o que piora ainda mais com os ataques feitos por uma coalizão de países (como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, liderados pela Arábia Saudita).

2) De onde vem essa briga?

É difícil dizer como tudo começou. O Iêmen passou 33 anos sob a ditadura de Ali Abdullah Saleh, que abandonou o poder depois da pressão popular durante a Primavera Árabe. E, no lugar, quem assumiu foi seu vice, Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi. Mesmo assim, Saleh continuou a viver no país e a ser um político bastante influente por lá.


O filme "Karama não tem muros" (2013), indicado ao Oscar, mostra um dos ataques do governo de Saleh aos rebeldes, antes de ser deposto.

Durante os mais de 30 anos de ditadura, um dos grupos mais ignorados pelas autoridades foi o dos houthis, que seguem o xiismo (ao contrário da maioria no Iêmen, que é sunita) e se rebelaram contra o governo já em 2004, quando a onda de tensão cresceu. O grupo xiita protestava contra as condições em que viviam, a corrupção no governo, e contra a posição do Iêmen como aliado dos Estados Unidos.

Assim, em janeiro deste ano, quando o governo de Hadi resolveu esboçar uma nova Constituição e a divisão do território em seis regiões, os houthis se revoltaram. Isso porque Saada, que fica no norte do país, local dominado historicamente pelo grupo, ficaria ligada de vez a Sanaa, a capital iemenita.

Quando os houthis começaram a ganhar força e dominar as cidades de todo o país no começo do ano, ganharam também o apoio de outras tropas (como as que costumavam ser aliadas de Saleh), e o conflito estourou de vez. Hadi chegou a renunciar e abandonar a capital, tamanho o avanço dos rebeldes, que também dominaram locais portuários importantes, como Hudeida.

3) Quem está brigando?

Já deu pra entender que o governo iemenita e os houthis são elementos importantes da história ? mas são só a metade. Por baixo dos panos, os aliados de Saleh (aquele governante que ficou no poder por 33 anos) começaram a apoiar os rebeldes e atrapalharam ainda mais o cenário. E isso irritou um dos principais parceiros do Iêmen, a Arábia Saudita.

A relação de longa data com os sauditas já se estendia há tempos, uma vez que o Iêmen tem um território importante para o comércio de petróleo e faz fronteira com o país. Parecia a receita perfeita: a Arábia Saudita tinha um aliado pertinho do chifre da África, com acesso a uma rota pelo mar em que escoasse o petróleo, e ainda mantinha as fronteiras livres de complicações com um país de maioria sunita.

Outro parceiro, os Estados Unidos, também entrou na jogada quando percebeu que um novo grupo poderia tomar o poder. Por muito tempo, manter o Iêmen como amigo garantiu a presença dos americanos na região, nas investidas contra a Al Qaeda. O trato era o seguinte: os americanos cediam armas, e os governantes iemenitas davam espaço para a ação deles no Oriente Médio, inclusive ataques de drones.

Com a pressão subindo, os países descontentes com a atual situação do Iêmen (entre eles, os sauditas) se agruparam para atacar o lugar, como tem sido feito há meses. Enquanto isso, os boatos sobre o apoio do Irã (que tem maioria xiita) aos houthis cresceram, sugerindo que o governo iraniano encaminhava armas para os rebeldes.

"Filmar Star Wars é um sabre de luz de dois gumes", diz J.J. Abrams em entrevista

POR Marcel Nadale 

Uma entrevista exclusiva com J. J. Abrams, o diretor do novo Star Wars VII: O Despertar da Força, que estreia em 17 de dezembro.

Magrinho e simpático, Abrams é um fã no papel de diretor e conhece cada detalhe do universo de Star Wars. O cineasta de 49 anos sabe o tamanho da responsabilidade que carrega nas costas, mas não parece estar preocupado - diz que criou um novo vilão, totalmente diferente de Darth Vader, e que a nova trilogia não vai ficar apenas na velha luta do "bem X mal". Será a hora de um Lado Cinzento da Força?

- Quando você entrou no projeto, quanto dele já havia sido definido? Trama, personagens, objetivos?

Nada. Zero.

- Toda essa liberdade não foi intimidadora? A possibilidade de seguir em qualquer direção?

Foi um pouco, no começo. Foi uma parte importante da experiência de fazer esse filme. Foi como um sabre de luz de dois gumes: de um lado, o potencial e as oportunidades ilimitadas; do outro, o terror dessas mesmas coisas. Senti, como senti ao longo da produção, muita sorte de trabalhar com gente incrivelmente talentosa e capaz, como ter Lawrence Kasdan como roteirista, e Kathleen Kennedy como produtora. Recebi uma grande página em branco no início, mas é assim que tudo começa.

- Havia algum elemento específico que você gostaria de explorar nesse filme? Um tema, um tipo de personagem, uma cena de ação, uma emoção, um relacionamento?

Para mim, havia muita coisa. Sem revelar demais, quis trazer para a nova história o mesmo espírito que senti quando era pequeno e vi o primeiro filme. Era a história de um "qualquer" (seja um homem ou uma mulher), um "zé ninguém", que precisava perceber que era alguém, que estava no pé da escada e tinha que escalar essa escada ao longo da história, e que precisa descobrir que ele ou ela é importante. O filme mostrava o incrível mundo de Star Wars pelos olhos de alguém que não é uma elite, um privilegiado, era alguém com quem você podia se identificar. Para mim, esse era o poder de Star Wars. Contava a história de alguém batalhador, desesperado, bem-intencionado, romântico, esperançoso, que era uma pequena engrenagem numa enorme máquina, mas que mesmo assim derrotava o inimigo, superava um obstáculo e conseguia o impossível. Isso, para mim, é um sentimento inspirador e maravilhoso. Eu sabia que, entrando nesse projeto, havia tantas coisas que eu poderia fazer, ideias para sequências de ação que a gente queria fazer e fez, mas também coisas que eu estava desesperado para fazer, mas não havia espaço. Ideias de naves, objetos de cena e lugares que não entraram no corte final, outras que entraram, uma tonelada disso. Mas, no coração disso estava o espírito do filme.

- O que você pode nos contar a respeito de Kylo Ren [que deve assumir o papel de vilão]? Seu visual, sua espada com manopla transversal... O que mais você pode nos contar?

Não posso dizer mais do que já foi dito... Eu terei de ser um mal entrevistado neste caso. Se a pergunta for diretamente "o que mais você pode dizer do personagem", não posso ir adiante, a não ser adiantar que ele é uma figura essencial na trama.

- Então deixe-me refazer a pergunta. Como você enxerga a relação, dentro ou fora do filme, entre ele e Darth Vader, que é um dos vilões mais icônicos da história do cinema?

Foi intimidador. Não há quem vá preencher o espaço de Darth Vader. Você não pode criar um personagem para ser "o próximo Vader". O que George Lucas fez com aquele personagem foi poderoso demais. O aspecto maravilhoso da nossa história é que Kylo Ren, como todos os outros personagens, está ciente do que veio antes. O reconhecimento de quem foi Vader, neste filme, neste mundo, é algo que permite que Ren se torne um tipo diferente de personagem. O que não poderíamos fazer e não queríamos - talvez nem conseguiríamos - era criar outro vilão que soasse como Vader. Que soasse vazio ou repetitivo. Tentamos criar um personagem que tinha uma abordagem, uma atitude e uma história bem diferente.

- Os filmes originais giram em torno do bem contra o mal, o Lado Negro X o Lado Luminoso. O mundo hoje é bem mais complexo hoje do que era há 40 anos, mas Star Warsainda é preto no branco. Você acha que um dia veremos o "Lado Cinzento" da Força? Algo no meio, ambíguo?

Acho que um único filme não consegue fazer tudo. No caminho que estamos trilhando nessa saga, as coisas chegam a um ponto mais parecido com essa linha que você está mencionando [moralmente ambíguo]. Acho que ninguém quer fazer algo que é muito simples ou só um remake. O que é interessante nesse mundo é que, embora haja uma simplicidade do Lado Negro e do Lado Luminoso, é na intersecção dos dois que temos algo realmente interessante.


A entrevista completa você verá em breve  - e também o que Abrams entregou sobre o novo filme.


Fonte: Revista Superinteressante

Como a hipnose chegou ao mainstream

POR Estúdio ABC 

A técnica ainda é um assunto nebuloso, mas já deixou de ser atração de circo e programa de auditório: agora é utilizada para salvar vidas e solucionar crimes

Até uns 20 e poucos anos, quando pensávamos em hipnose a imagem que nos vinha à cabeça era a de um coitado imitando uma galinha, comendo cebola como se fosse maçã ou fazendo confissões constrangedoras para deleite de uma plateia de auditório. O tom bizarro que impregnava o assunto está quase no passado. A técnica agora é oferecida em spas de Los Angeles e usada em salas de cirurgia e delegacias de polícia. Está atingindo um público diversificado, interessado até em auto-hipnose na sala de casa.

Essa mudança é recente: foi a partir do fim dos anos 1990 que exames de tomografia computadorizada comprovaram que o processo não se trata de truque de circo. Gente comum passou a descobrir a utilidade e a acessibilidade da técnica, que nada tem de assustadora ou engraçada. Parte da culpa dessa fama de pouca seriedade vem desde que a prática surgiu, pelas mãos do alemão Franz Mesmer, um sujeito esquisito que se vestia de roxo e dizia ter inventado uma varinha de condão de verdade.

Para começo de conversa: hipnose é um estado da mente que se instala de forma natural. Sempre que deixamos de prestar atenção aos muitos estímulos ao redor e focamos em um único ponto, estamos hipnotizados, em algum grau. Se não fosse assim, ninguém se assustaria com filmes de terror. O que os médicos fazem é estimular estados mais profundos e controlados, com objetivos claros. "Não é hipnotizável quem não consegue fixar a atenção: maníacos, deprimidos graves, pessoas com retardo mental moderado ou sob o efeito de drogas psicoestimulantes", resume o psiquiatra Fernando Portela Câmara, professor da Universidade Federal Fluminense.

A técnica ainda é cercada de mitos enganosos. Se você continua com a cebola na cabeça, é hora de se atualizar.



Contra o crime

A polícia de Ponta Grossa, interior do Paraná, tinha ótimas testemunhas para um atropelamento com vítimas fatais. Dois adolescentes que tinham sido atingidos sobreviveram, mas não se lembravam bem do que havia acontecido. Com base em depoimentos de gente que viu o caso de longe, a polícia acreditava que o veículo do criminoso era um Ômega bordô. Mas ninguém tinha notícia de um carro desse modelo e dessa cor. Até que os dois adolescentes aceitaram se submeter à hipnose. Com a ajuda do terapeuta, resgataram memórias do caso e garantiram: o Ômega era azul. A informação foi crucial para que os policiais encontrassem o carro, abandonado em um barracão, e chegassem ao motorista culpado.

Desde que foi fundado, em 1983, o Laboratório de Hipnose Forense do Instituto de Criminalística do Estado do Paraná resolveu mais de 800 casos desse gênero. Normalmente, a técnica serve para que as vítimas se lembrem de detalhes cruciais, que servem de ponto de partida para os agentes fazerem seu trabalho. Pode ser o rosto do criminoso, a cor da roupa que ele usava, uma placa de carro, uma placa de rua ou o logotipo de uma empresa dos arredores.

Mas o relato de uma pessoa hipnotizada, sozinho, não tem valor judicial. Acontece que o processo de resgate da memória não é totalmente preciso e um terapeuta pode implantar lembranças que não existem - é exatamente o que ele faz, por exemplo, para induzir uma aversão a cigarro ou lidar com uma pessoa que tem fobia de falar em público. Ainda assim, muitas vezes a cor exata de um carro é o suficiente para desvendar um atropelamento, desde que os investigadores confirmem a pista.

"Utilizo a hipnose somente em vítimas ou testemunhas de crimes, em especial assalto, sequestro, homicídios, estupros e acidentes de trânsito, com a condição de a pessoa estar com um bloqueio de memória", diz o psiquiatra Rui Fernando Cruz Sampaio, fundador e chefe do laboratório. Um garoto de 22 anos, por exemplo, conseguiu encontrar sua família depois que foi sequestrado quando tinha 8 anos. Ele era conhecido como Michael porque era fã de Michael Jackson, vivia no Paraná e não fazia a menor ideia de quem era ou de onde vinha. Hipnotizado, citou a cidade de Esplanada, na Bahia. Com base nessas informações, a polícia chegou à família que tinha perdido o garoto 14 anos antes.

Em um caso específico, um crime acabou sendo solucionado. É porque uma vítima acabou se mostrando a criminosa - era uma mãe, que aceitou ser hipnotizada para investigar no caso de um bebê de 40 dias encontrado morto na região metropolitana da capital paranaense. Confirmou-se depois que ela é que havia assassinado a própria filha.

Normalmente, seja em Curitiba, Boston, Londres, seja em Moscou, a hipnose só acontece a pedido do delegado, com consentimento da vítima, numa sessão liderada por um terapeuta e acompanhada pelo menor número possível de pessoas, de preferência apenas um especialista em retratos falados, e só quando necessário. Quando a vítima é menor de idade, os responsáveis autorizam a prática e acompanham em uma sala ao lado, mas não no mesmo ambiente para não atrapalhar o procedimento.

"Dispomos de mais de mil técnicas de indução. Dependendo do perfil psicológico da vítima ou testemunha, faço a opção pela que julgo mais adequada", diz Sampaio. Em geral, as sessões duram uma hora, mas em casos de crimes especialmente violentos podem chegar a três. Em Curitiba, a cidade que lidera no Brasil o uso de hipnose para ajudar nas investigações, o laboratório atende a sete casos por semana. Em quase todos, fornece algum tipo de informação crucial para a polícia.



A favor da saúde

Vítima de um tipo sério de artrite, o inglês Alex Lenkei chegou ao centro cirúrgico para uma operação de retirada da base de seu dedo polegar. Hipnoterapista profissional, Alex ficou em transe ao longo dos 83 minutos do procedimento. Sentiu que estavam cortando sua carne, ouviu o barulho do osso sendo quebrado, mas não se apavorou nem reagiu nenhuma vez sequer. Ele ainda se submeteu a outras cinco cirurgias. Em uma delas, seu tornozelo foi cortado com uma serra. E ele não precisou de anestesia em nenhuma das vezes.

Esse caso não é tão raro assim nem tão inédito. Desde o século 19, cirurgias e amputações são realizadas usando hipnose no lugar de anestésicos. Durante a Primeira e a Segunda Guerras, na falta de medicamentos, os médicos que conheciam a técnica a usavam com frequência. Bem mais recentemente, a belga Christel Place se submeteu a uma retirada de tireoide enquanto imaginava a si mesma esquiando nos Alpes franceses. O procedimento, que geralmente precisa de anestesia geral com todos os muitos riscos implicados, exigiu somente uma breve sedação no local. (Os belgas, aliás, pesquisaram casos assim e perceberam que mulheres que retiram tumores de mamas usando hipnose no lugar de anestesia têm menos chance de metástases.)

O alcance na medicina passa por casos extremos como esses, mas vai muito além. A técnica é extremamente útil em três linhas diferentes: serve para aliviar dor, para alterar comportamentos indesejáveis e para lidar com doenças psicossomáticas. Vamos continuar tratando do primeiro caso.

Na Inglaterra, um programa piloto com mulheres grávidas está se expandindo rapidamente e já chegou a quase mil mães, que participaram de duas sessões, de 90 minutos cada uma, seis semanas antes do parto. O objetivo é ensiná-las a praticar auto-hipnose, aplicada durante o trabalho de parto. Em geral, as mães que participaram do processo e dão à luz com parto normal pedem a anestesia peridural com menos frequência.

O uso em consultórios odontológicos é bem mais disseminado e já se tornou uma área específica de atua-ção, chamada hipnodontia: o especialista fica dentro do consultório e estimula o estado de transe durante os procedimentos mais dolorosos. O Conselho Federal de Odontologia aceita e recomenda a prática, com a exigência de que cirurgiões-dentistas façam um curso de 180 horas para poder eles mesmos aplicar a terapia.

Mais recente é o apoio para pacientes hipnotizados depois de tratamentos de rádio e quimioterapia. Realizar as sessões sob o efeito do transe diminui a sensação de náusea e a falta de apetite. O Conselho Paulista de Medicina aprova o uso nesses casos e o Hospital das Clínicas de São Paulo usa a técnica em seus pacientes de câncer.

A hipnose não tira a dor. Em seu estado mais sugestionável, a pessoa é convencida a substituí-la por uma sensação de calor ou de formigamento, algo mais controlável e tolerável. E por isso desde 2010 o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional aceita a terapia como tratamento auxiliar para alguns problemas musculares e de coluna.

Sobre as mudanças de comportamento, essa terapia tem um trunfo gigantesco: ela ajuda a mexer com a memória. Pode atenuar um episódio especialmente traumático do passado ou atuar contra depressão, fobias e insônia. Por isso, vício em jogo, álcool ou cigarros pode ser trabalhado por um hipnoterapeuta que crie ou reforce vínculos negativos relacionados à atividade. O mesmo vale para pessoas que têm anorexia ou bulimia, e mesmo para alguns casos de impotência.

As doenças psicossomáticas são tratáveis assim porque a terapia mexe com o aspecto psicológico delas. Por isso a terapia reduz a incidência de asma, cólon irritável e problemas de pele e ataca a psoríase e o vitiligo.

Não é exagero creditar tantos benefícios para a hipnose. A técnica provoca um efeito poderoso sobre o cérebro: com a atenção totalmente focada, a pessoa evita que os estímulos externos alcancem o córtex superior, a região responsável pela percepção da dor.

O tratamento ainda diminui os níveis de serotonina, o transmissor ligado às sensações de bem-estar, e estimula a produção de moléculas chamadas moduladores imunológicos, que se ligam às células de defesa e evitam que elas ataquem tecidos do próprio corpo. Tudo muito mais impressionante do que os shows de mágica dos programas de auditório de TV.



Faça você mesmo

É totalmente possível fazer hipnose sozinho. Já fazemos isso, sem querer, o tempo todo, mas podemos criar transes com objetivos mais claros. É importante, aliás, estabelecer metas para cada sessão. "Todo mundo quer chegar em casa depois de um dia difícil e relaxar. Com um pouco de dedicação e disciplina, é possível transformar esse momento em uma oportunidade de melhorar a própria saúde física e mental", diz o psiquiatra David Spiegel, da Universidade Stanford.

Para alcançar o estado de hipnose, é preciso seguir alguns passos simples. Em primeiro lugar, crie um ambiente relaxado. Vista um moletom, desligue o celular, prefira luz baixa e indireta, procure evitar ruídos e estímulos - a não ser que você tenha em mãos alguma música bem new age ou sons da natureza e gravações de mantras. Se morar com alguém, peça para não ser incomodado por pelo menos meia hora. Sente-se em algum lugar agradável e evite cruzar pernas ou braços. Encontre a posição mais confortável possível para ficar assim por bastante tempo sem se incomodar. Procure um ponto na parede e comece a olhar fixamente para ele.

Pode ser um quadro, uma mancha, um interruptor. Se você não consegue ficar muito tempo concentrado num único ponto, mude de estratégia e concentre sua atenção em algo que se mova de forma cíclica - um relógio cuco, um pêndulo, um metrônomo ou até mesmo aqueles gifs hipnóticos da internet. Se usar um relógio, foque a atenção em um dos números. Você vai perceber que os outros vão começar a ficar borrados.

Enquanto fixa o olhar, respire. Devagar. Pense nos movimentos de puxar e expelir o ar. Esqueça-se dos problemas, do trânsito, da briga com a namorada, do preço da picanha. Respire. De novo. E mais uma vez. Com muita calma. Imagine um lugar tranquilo, uma ilha deserta, uma montanha. Deixe sua imaginação fluir. Se algum pensamento negativo aparecer, analise-o com calma e dispense-o devagar, sem mágoas nem ressentimentos.

Balance o corpo, para lá e para cá, como se estivesse num barco ou caminhando lentamente. Se você gosta de conversar sozinho, não se contenha. Mas fale baixo e em tom monótono e repetitivo - os psicólogos estão descobrindo que os estímulos sonoros são tão ou mais importantes do que os visuais.

Uma boa forma de agilizar o processo é pensar em cada um dos membros do corpo como se eles tivessem vida própria e começassem a adormecer lentamente, por partes. Sinta o braço direito ficar amortecido. Depois o esquerdo. Depois o pé, a panturrilha, a nuca, o rosto, as pálpebras. Sinta a tensão deixando você, até perceber.

 Quando você menos perceber, já vai estar hipnotizado. Se pensar demais nisso, vai acabar com o próprio transe. Deixe-se levar, mantendo a respiração sob controle. É a hora de tratar de seus objetivos. Aproveite para mentalizar alguns comandos simples para você mesmo, como "Não vou mais me irritar no trânsito", "Vou reduzir o número de cigarros que eu fumo por dia", "Vou comer menos doces". Tudo muito positivo, relacionando esses comandos com sensações positivas e saudáveis.

Depois de algum tempo, você vai começar a voltar ao estado natural. Induza esse estado repetindo para si mesmo: "Estou relaxado, descansado, calmo, tranquilo. Agora vou retornar às minhas atividades normais, com uma nova disposição". Imagine-se saindo de uma piscina quente, degrau após degrau. Sinta o vento batendo no rosto.

Ao final do processo, você vai estar se sentindo muito melhor. Talvez com uma leve sonolência nos primeiros minutos, como se tivesse acabado de acordar, mas logo depois vai estar novo em folha. Se transformar esse relaxamento em rotina, vai começar a ver resultados - como o piloto André Borschberg, da companhia Solar Impulse, que fez da técnica uma maneira de não ter sono durante o longo voo que ele está para realizar entre a China e o Havaí no comando de uma aeronave inteiramente movida a energia solar.

"A hipnose não tem relação direta com a meditação aos moldes orientais, mas seus resultados são parecidos", diz David Spiegel. "Ajuda a pessoa a encontrar o tão falado equilíbrio entre corpo e mente."



Fonte: Revista Superinteressante

Por que ficamos bravos quando temos fome?

POR Ana Carolina Prado 



“Cara feia, para mim, é fome”. Taí um dito popular que a ciência apoia – e pode explicar. Tem muita gente que é um doce, mas se transforma quando está com o estômago vazio. Por que isso acontece?

Uma pesquisa da Universidade de Cambridge publicada este ano descobriu que isso pode estar relacionado às flutuações dos níveis de serotonina no cérebro, coisa que ocorre frequentemente quando você está estressado ou sem comer. A serotonina é um neurotransmissor – molécula que atua na comunicação entre os neurônios – e é importante para ajudar a regular o nosso comportamento. A falta dela afeta fortemente as regiões cerebrais responsáveis por controlar a raiva.

Para o estudo, voluntários saudáveis tiveram seu nível de serotonina alterado pela manipulação de sua dieta. Então os pesquisadores usaram ressonância magnética funcional (fMRI) para mapear e medir sua atividade cerebral enquanto eles viam rostos com expressões de raiva, tristeza e neutra.

A pesquisa revelou que baixos níveis de serotonina provocaram comunicações mais fracas entre regiões específicas do sistema límbico emocional do cérebro (uma estrutura chamada amígdala) e os lobos frontais. Isso sugere que, quando os níveis de serotonina estão baixos, pode ser mais difícil para o córtex pré-frontal controlar as respostas emocionais para a raiva geradas dentro da amígdala.

Então, se você está há um tempo sem comer (e, por isso, com níveis mais baixos de serotonina), vai realmente se irritar por qualquer coisa, pois seu cérebro perde parte de sua capacidade de controlar a raiva. E o estudo mostrou ainda que o problema é mais grave em  pessoas que já possuíam uma predisposição ao comportamento agressivo. Portanto, nunca deixe aquele seu amigo esquentadinho esperar muito tempo pra comer.


Fonte: Revista Superinteressante

Ministério da Fazenda confirma antecipação do 13º dos aposentados

Ivan Richard - Repórter da Agência Brasil Edição: Valéria Aguiar

Segundo o Ministério da Fazenda, antecipação será dividida em duas vezes, sendo 25% no mês que vem e o mesmo percentual em outubro. Os 50% restantes serão pagos normalmente em dezembro Arquivo/Marcelo Camargo/Agência Brasil
Segundo o Ministério da Fazenda, antecipação será dividida em duas vezes, sendo 25% no mês que vem e o mesmo percentual em outubro. Os 50% restantes serão pagos normalmente em dezembro Arquivo/Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) receberão em setembro a primeira parcela da antecipação do 13º salário. De acordo com o Ministério da Fazenda, antecipação será dividida em duas vezes, sendo 25% no mês que vem e o mesmo percentual em outubro. Os 50% restantes serão pagos normalmente em dezembro.

Desde 2006, segundo o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi), a antecipação era paga em agosto. Ontem (21), o Ministério da Fazenda havia informado que a proposta de parcelamento da primeira parcela do 13 salário dos aposentados ainda dependia do aval da presidente da República, Dilma Rousseff.

No início da semana, a Receita Federal informou que arrecadação federal teve o pior resultado para o período de janeiro a julho em cinco anos. O país arrecadou R$ 712 bilhões nos primeiros sete meses deste ano, montante que representa queda de 2,91% em relação ao mesmo período de 2014. O resultado para julho também foi o pior para o mês desde 2010. No mês passado, o país recolheu R$ 104,8 bilhões em receitas, o que representa redução de 3,13% em relação a julho de 2014.

A queda no montante arrecadado, tanto no acumulado do ano quanto no mês, traz descontada a inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A queda na produção industrial foi o principal motivo do recuo da arrecadação nos sete primeiros meses do ano.

Antes mesmo da confirmação da mudança no pagamento da primeira parcela do 13º salário, o Sindnapi criticou a medida e entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal. “Somos contra [o parcelamento], porque, na verdade, a antecipação já é a metade [do valor do 13º]. O benefício do aposentado e pensionista não é crediário. O aposentado conta com esse dinheiro”, disse o presidente do Sindnapi, Carlos Ortiz.

Aprovada na Câmara, redução da maioridade pode acabar engavetada no Senado

Karine Melo – Repórter da Agência Brasil Edição: Denise Griesinger

Depois da aprovação pelo plenário da Câmara dos Deputados, na última semana, da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171/93 que reduz, em alguns casos, a maioridade penal de 18 para 16 anos, a responsabilidade por levar a discussão adiante está com os senadores, que precisam submeter o texto a dois turnos de votação. A tarefa, no entanto, não será fácil. Após o resultado da Câmara, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), voltou a dizer que pessoalmente é contrário a proposta.

"Eu não sou a favor, mas não significa que a matéria não vá tramitar no Senado Federal, que já votou a atualização do ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] que eu acho que, do ponto de vista da sociedade, é uma resposta mais consequente", disse.

Renan se referia ao PLS 333/15, que altera o ECA, de autoria do senador José Serra (PSDB-SP), que teve o substitutivo do senador José Pimentel (PT-CE) aprovado pela Casa. O texto aumenta o tempo de internação de jovens infratores que tenham cometido crimes hediondos dos atuais três para até dez anos. Aprovada em julho pela Casa, a matéria seguiu para análise da Câmara.

O mesmo texto prevê uma alteração no Código Penal para agravar a pena do adulto que praticar crimes acompanhado de um menor de 18 anos ou que induzir o menor a praticá-lo. A pena do maior será de dois a cinco anos, mas poderá dobrar para os casos de crimes hediondos.

Outro ponto proposto por Pimentel prevê que os adolescentes passarão por avaliação, a cada seis meses, feita pelo juiz responsável pelo caso. Assim, o magistrado poderá analisar e optar por liberar antecipadamente, se for o caso, o jovem da reclusão. Nos centros de internação, os jovens também terão que estudar até concluir o ensino médio profissionalizante e não mais somente o ensino fundamental, como é previsto no ECA hoje.

Já a PEC aprovada pelos deputados, prevê redução da maioridade nos casos de crimes hediondos – como estupro e latrocínio – e também para homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte. Os jovens de 16 e 17 anos deverão cumprir a pena em estabelecimento separado dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas e dos maiores de 18 anos.

José Pimentel criticou a proposta de mudar a Constituição e ressaltou que com a alteração no ECA, o Senado já antecipou sua posição sobre o assunto, sinalizando que a proposta dos deputados deve ficar estacionada no Senado. "O texto que a Câmara aprovou simplesmente pega esse menor e leva direto para dentro de um presídio, não tem a obrigação nem de educar e nem de dar uma profissão. Já com o adulto que utiliza a mão de obra desse menor na consumação de um crime, continua tudo como está. São visões diferentes para enfrentar o mesmo problema", defendeu.

 Para o líder do PMDB no Senado,  Eunício Oliveira (CE) , o destino da PEC na Casa  é claro: "aqui engaveta!".  Outro líder, o do PT, senador Humberto Costa (PE),  tem uma avaliação parecida. Ele acha difícil o texto de redução da maioridade aprovado na Câmara avançar no Senado. “Não acredito que essa PEC prospere no Senado. Meu sentimento é de que a ampla maioria dos senadores se opõe a ela. Então não creio que essa PEC que veio da Câmara, que é um retrocesso, com toda oposição da bancada do PT, vá andar no Senado. E, se andar, e vier a plenário, acredito que será derrotada. Não conseguirá 49 votos favoráveis", disse o líder.

A proposta aprovada pelos deputados também enfrenta resistência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "A redução da maioridade penal é inconstitucional, viola princípios de Direito Internacional, portanto ela é inconvencional e além de tudo isso, não vai reduzir a criminalidade. Portanto, ela é materialmente ineficaz. Por esses motivos todos a OAB é contra a redução da maioridade penal", explicou o presidente da comissão de Direito Penal do Conselho Federal da OAB, Pedro Paulo de Medeiros.

Sobre o texto aprovado pelo Senado, o advogado disse que a entidade ainda não tem uma opinião formada porque ainda não foi provocada sobre o assunto, mas lembrou que nas discussões sobre o tema na entidade, foi dito que um aprimoramento do ECA sobre o assunto talvez fosse mais aconselhável do que a redução da maioridade penal.

Para a Secretaria de Direitos Humanos, não há necessidade de uma nova legislação para jovens infratores. “A gente é pioneiro no mundo em relação a ter uma legislação própria para crianças e adolescentes. Temos que reconhecer isso. Obviamente que ajustes são necessários em alguns aspectos, mas os mais importante é preservar o melhor interesse da criança e do adolescente. O que precisamos é dar condições aos entes federados para que eles apliquem a Lei”, ponderou o secretário substituto da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Rodrigo Torres.

De 1993 até hoje, o Congresso acumula mais de 60 propostas envolvendo jovens infratores. Algumas alteram o Estatuto da Criança e do Adolescente para endurecer as medidas socioeducativas nesses casos, outras sugerem a redução da maioridade penal.


Entidades lançam observatório de denúncias sobre drogas e direitos humanos

Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil Edição: Valéria Aguiar

O site Vozes da Rua, que é um observatório de denúncias sobre drogas e direitos humanos, está sendo lançado hoje (22),  desde as 15h, na Praça Júlio Prestes, centro da capital paulista. Seu objetivo é coletar e dar visibilidade a informações, principalmente sobre a região da Cracolância, e articular reações contra violências sofridas pela população em situação de rua, que, muitas vezes, são vítimas do próprio estado.

“Para mudar a realidade, a primeira coisa é conseguir olhar para ela, ver como ela é, para assim poder transformá-la”, disse Roberta Costa, que trabalha na promoção da redução de danos sociais e à saúde associados ao uso de drogas, pelo Centro de Convivência É de Lei, e também é militante do coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR). Para ela, é possível que a sociedade tenha conhecimento e clareza da situação dessas pessoas, podendo atuar no combate a essa “realidade muito sofrida.”

O site terá publicação livre e aberta às denúncias, além de reflexões envolvendo a política de drogas e os direitos humanos. Haverá também orientações sobre atendimento jurídico e psicossocial para as vítimas de violência.

Rogério Guimarães, 43, é catador de material reciclável, morador do bairro do Glicério e já foi dependente de crack. Uma parte de sua história será apresentada em vídeo no lançamento de hoje e está disponível já na internet.

Ele veio de Pernambuco há cerca de 30 anos e aqui, na capital paulista, encontrou muita dificuldade. Acabou se tornando dependente químico. Há dez anos, conheceu o É de Lei e começou a se desvincular do vício. Segundo ele, a droga faz as pessoas perderam as forças e “começa a desfigurar nossas raízes”.

Rogério, que declarou já ter sofrido abordagens abusivas e até violentas da polícia militar, acredita que é preciso abordar o dependente químico com respeito e mais calma. Para ele, a repressão não é o melhor caminho de tratamento para essas pessoas.

Questionado sobre como alguém consegue deixar o crack para trás, aconselha: “ele mesmo tem que achar que está no tempo certo, [perceber] se isso está causando mal à vida dele, da família. Esse é o primeiro passo que tem que dar”. Além disso, Rogério disse que se relacionar com outras pessoas o ajudou muito.

O espaço em que ele recebeu apoio, o É de Lei, fica na Rua 24 de Maio, 116, 4º andar. Roberta Costa explicou que “o centro de convivência tem um espaço físico que recebe as pessoas, acolhe, tem oficinas e é um ponto de cultura, que pensa a arte como forma de ampliar horizontes”.

O evento de lançamento de hoje conta com uma mesa de debate com Taniele Rui, autora do livro Nas Tramas do Crack; a socióloga Vera Telles; o antropólogo Rubens Adorno e Raul Nin Ferreira, da Defensoria Pública de SP. Após o debate, que começou por volta de 16h, haverá projeção do vídeo que conta a história de Rogério, além de uma roda de samba.

As entidades que compõem o Vozes da Rua são: Associação Brasileira de Estudos Sociais do Uso de Psicoativos; É de Lei; Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama da Universidade de São Paulo  (USP); Coletivo DAR; Coletivo Sem Ternos; Conselho Regional de Psicologia; Defensoria Pública de SP; Grupo de Estudo e Pesquisa da Prof. Vera Telles (USP); Grupo de estudo e pesquisa do Prof. Rubens Adorno (USP); Grupo de Estudos Drogas e Sociedade; Margens Clínicas; Na Margem – Núcleo de Pesquisas Urbanas  da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar); e Projeto Oficinas.


Nadador brasileiro vence último evento-teste para os Jogos Olímpicos Rio 2016

Nielmar de Oliveira – Repórter da Agência Brasil Edição: Denise Griesinger

O evento aconteceu em um dia de calor, céu claro e sol forteFernando Frazão/Agência Brasil
Foi na batida de mão: o brasileiro Allan do Carmo venceu hoje (22), na Praia de Copacabana, na orla da zona sul da cidade, a prova da maratona aquática em evento-teste para os Jogos Olímpicos Rio 2016.

O evento aconteceu em um dia de calor, céu claro e sol forte, com temperatura em torno dos 30 graus Celsius (°C) – 18ºC  a 19°C dentro da água. A prova, disputada de forma acirrada, teve um final emocionante com o atleta brasileiro, atual campeão mundial, derrotando o japonês Yasunari Hirai na batida da mão – diferença de apenas um segundo.

Com o mar agitado, o baiano completou os 10 quilômetros da prova em 2h03m53s, seguido por Hirai em 2h03m54s. Em terceiro lugar chegou o canadense Weinberg Richard que completou a prova em 2h03m57s. Com enjoo, outro brasileiro que disputava a prova, Diogo Villarinho, abandonou a competição na terceira volta.

Depois de vencer a prova, Allan do Carmo disse que as condições adversas do mar tornaram a prova muito difícil. “A prova foi muito disputada e as condições do mar, muito mexido, a tornaram ainda mais difícil. E nessas condições, você tem que ter um senso de direção muito grande, mas essa é uma das minhas principais características”, disse Allan, admitindo gostar de nadar com o mar nessas condições.

Para Gustavo Nascimento, gerente de Instalações da Rio 2016, apesar do atraso no início da competição, o evento passou no teste e o Rio está preparado para receber os Jogos Olímpicos “Hoje o nosso foco foi a água, mas as coisas aconteceram bem na parte em terra, com a presença do público, boa circulação do tráfego e este lindo dia que vocês estão vendo aí", disse ele. "A prova atrasou um pouco, o que não estava previsto, mas os árbitros estavam vindo da Marina da Glória de barco e nós tivemos que diminuir a velocidade das embarcações por causa das condições do mar", admitiu Nascimento.

Ao todo neste final de semana 50 atletas de modalidades masculina e feminina estarão participando do evento-teste da Marona Aquática na Praia de Copacabana. Depois dos 25 homens que participaram da prova de hoje, amanhã (23) será a vez das mulheres. A prova terá a participação da bicampeã mundial da modalidade, a brasileira Ana Marcela Cunha. Entre os destaques da competição feminina estará também Poliana Okimoto que, assim como Allan do Carmo, já tem sua vaga garantida para os Jogos Rio 2016.

A maratona aquática é o sétimo e último evento preparatório para o Rio 2016. Os eventos-teste começaram em julho, com o vôlei, no Maracanãzinho, onde ocorreu a fase final da Liga Mundial. Já ocorreram também eventos de triatlo, remo, hipismo, ciclismo de estrada e vela - cujas competições também terminam neste sábado.

Ajustes finais

Fernando Possenti, técnico da bicampeã mundial Ana Marcela acredita que o evento de amanhã tem tudo para repetir o sucesso do de hoje, mas ressaltou que alguns ajustes e correções são necessários. "O evento de amanhã tem tudo para ser um acontecimento: a Praia de Copacabana é ótima, a praia e a água estão em ótimas condições, a temperatura está dentro do que é exigido para a maratona aquática”, disse ele.

Ao lembrar que nesta época do ano o mar fica mais agitado, Fernando cobrou maior firmeza para fixar os elementos que ficam na água para auxiliar na orientação dos atletas. “Os elementos que estão sendo utilizados na prova – a balsa de largada, o pórtico de passagem dos atletas e os barcos onde os treinadores alimentam [os atletas] – têm de ficar fixos. A gente sabe que o mar em agosto é mais agitado, mas a organização tem que dar um jeito de fixar isso”, disse.



Investigação sobre Cunha não terá desfecho rápido, diz analista político

Carolina Gonçalves - Repórter da Agência Brasil Edição: Armando Cardoso

No Congresso ou no Supremo Tribunal Federal (STF), o desfecho de uma possível investigação sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não deve ser rápido. Diante da denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que acusa o parlamentar de lavagem de dinheiro e corrupção ativa, com base nas investigações da Operação Lava Jato, os dois órgãos precisam seguir um passo a passo previsto em ritos específicos que podem arrastar o processo por anos.

Analista político, Antônio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), duvida que o processo seja concluído antes do fim do mandato de Cunha na presidência – de dois anos, segundo o Regimento Interno."

Para Antônio Augusto de Queiroz,os ritos podem arrastar o processopor anosGabriela Korossy / Câmara dos Deputados
Segundo Queiroz, um eventual pedido de afastamento por decisão do STF ou do Conselho de Ética da Câmara teria de passar pelo plenário da Casa. “A Constituição não autoriza destituir certo poder sem autorização da casa que ele preside”, disse o analista.

Para Queiroz, o caminho mais curto seria a renúncia de Cunha. Queiroz disse acreditar que o parlamentar “não vai aguentar a pressão”. Reconhecido como um dos pesquisadores com maior quantidade de dados sobre opiniões de parlamentares brasileiros, o analista político afirma que, dos 513 deputados, um terço defende a permanência de Cunha, um terço quer sua saída e o outro terço não manifesta posição.

Eduardo Cunha segue irredutível sobre a eventual renúncia. Desde que a denúncia foi oficializada, ele tem declarado ser inocente e estar sereno diante das acusações. Na sexta-feira (21), o deputado deixou claro: “não há a menor possibilidade de não continuar à frente da Câmara até o fim do mandato para o qual fui eleito”. Cunha garantiu que ninguém vai “constrangê-lo” e desafiou qualquer advogado a encontrar provas na denúncia de Janot. “Não há uma única prova contra mim em todas as páginas”, afirmou.

Partidos divididos

Antônio Queiroz lembra que “o simples fato de ter dado entrado na denúncia já é elemento suficiente para que algum partido adote ações políticas ou correcionais no âmbito da Casa”. Isso significa que os partidos podem pedir abertura de um processo de cassação no Conselho de Ética, mesmo antes de uma decisão do Supremo. Deputados do PSOL, PSB, PT, PPS, PDT, PMDB, PR, PSC, Pros e PTB já pediram o afastamento de Cunha, classificando sua situação como “insustentável”.

Se houver apresentação de um pedido de cassação, o Conselho de Ética define um relator, cujo parecer vai influir na aceitação ou não do pedido. O acusado tem 10 dias para encaminhar seus argumentos de defesa. Se o processo for iniciado, o colegiado tem 40 dias úteis para diligências, nos casos de perda de mandato, ou 30 dias se o pedido for para suspensão de mandato.

A partir daí, os integrantes do Conselho têm mais 10 dias para decidir se há procedência no pedido e se ela é parcial ou total. Caso haja sinalização para perda ou suspensão do mandato, o acusado tem mais cinco dias para recorrer à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que tem mais cinco dias para se manifestar.

Se a CCJ não acatar o recurso, o parecer do Conselho de Ética é lido no plenário da Câmara e fica pronto para ser votado. A Mesa da Casa tem prazo de 90 dias para incluir o pedido de cassação na ordem do dia do plenário. A partir do momento em que entra em pauta, tranca-se a votação de qualquer outra proposição. Qualquer cidadão também pode entrar com representação contra Cunha e o processo passará pelo mesmo rito do Conselho de Ética, mas, antes, terá de ser analisado pela Corregedoria da Câmara.

Supremo

A denúncia apresentada por Janot apenas oficializa a acusação contra Eduardo Cunha. A investigação sobre a participação do deputado em crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro envolvendo irregularidades na Petrobras ainda precisa cumprir uma série de exigências.

O relator dos processos da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Teori Zavascki, terá de notificar a defesa de Cunha e esperar a resposta, que pode ser enviada em 15 dias.

Depois disso, o Ministério Público Federal (MPF) ainda pode rebater a defesa. Apenas a partir daí, o plenário do STF se reúne para decidir se aceita ou não a denúncia. Caso aceite, o parlamentar vira réu e é aberta a ação penal em que começam a ser tomados depoimentos, apresentadas provas e contestadas as informações. Somente após esse trâmite, ocorre o julgamento final.

Na hipótese de o STF condenar Eduardo Cunha, a Câmara terá de avaliar a cassação do parlamentar. De acordo com a Secretaria-Geral da Mesa da Casa, a decisão da Corte precisa passar pela sindicância da Corregedoria, que tem 30 dias para análise, prorrogáveis por mais 30, . Depois disso, o Conselho de Ética ainda terá de se manifestar antes de o processo chegar finalmente ao plenário, onde a votação é aberta.

Presidentes acusados

Na história da Câmara, Cunha é o terceiro deputado a enfrentar uma situação de denúncia como presidente da Casa. O atual deputado estadual Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), que ocupou a mesma cadeira entre 1991 e 1993, acabou sendo cassado em maio de 1994, acusado de envolvimento em esquema de emendas parlamentares. Ele foi investigado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Anões do Orçamento.

A acusação que associou seu nome ao escândalo, baseada em suposta movimentação de US$ 1milhão, acabou sendo desmentida. O desmentido ocorreu mais de dez anos depois e Ibsen acabou inelegível por oito anos, como determina a Lei da Ficha Limpa. O peemedebista gaúcho comandou a Câmara durante o processo de impeachment do então presidente Fernando Collor, hoje senador e também incluído na lista de Janot.

Em setembro de 2005, o então deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) renunciou à presidência da Câmara, após 218 dias no cargo. Cavalcanti foi acusado de cobrar propinas mensais de R$ 10 mil do dono de um restaurante que funcionava na Casa. A propina garantia a renovação do contrato de concessão do serviço, acertada durante o período em que ele ocupou a Primeira-Secretaria, entre 2001 e 2002.

No comando da Câmara, o ex-parlamentar também foi alvo de procuradores da República do Distrito Federal, que pediram abertura de investigação contra ele ao Tribunal de Contas da União (TCU) por prática de nepotismo.



Barack Obama declara estado de emergência em Washington

Da Agência Lusa Edição: Armando de Araújo Cardoso

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, decretou nessa sexta-feira (21) estado de emergência em Washington, por causa dos incêndios florestais que atingem dez estados norte-americanos, afetando 526 mil hectares. Os governos da Austrália e da Nova Zelândia enviaram bombeiros para ajudar as equipes dos EUA,  que enfrentam dificuldades no combate às chamas.

 Barack Obama também anunciou a liberação de recursosDivulgação/Agência Lusa/EPA/Michael Reynolds/Direitos Reservados
Obama também anunciou a liberaçaão de fundos federais para combater os incêndios e para operações de assistência no estado de Washington, onde o fogo está sem controle. Três bombeiros já morreram.

De acordo com a agência intergovernamental dos incêndios (NIFC), muitos residentes de Washington, bem como em outros estados ocidentais, continuam deslocados de suas casas, "com os bombeiros tentando conter vastos incêndios”.

Seundo a emissora de televisão King-TV, mais de 5,1 mil casas estão em risco e um número não especificado de edifícios já foi destruído.

A expectativa do governo norte-americano é que os reforços da Austrália e Nova Zelândia cheguem amanhã (23).




Novas tecnologias contribuem para preservação e difusão da cultura popular

Akemi Nitahara - Repórter da Agência Brasil Edição: Armando Cardoso

A folia de reis é uma das manifestações de cultura popular do BrasilRENATO ARAUJOABr
No Dia do Folclore, comemorado hoje (22), a cultura popular brasileira se reinventa com grupos e artistas se apropriando das redes sociais e da tecnologia da informação, de modo a permancerem atuais, de acordo com o presidente da Comissão Nacional do Folclore, Severino Vicente. A entidade foi criada no fim da década de 1940, com orientação da Unesco, para divulgar a cultura do bem e salvaguardar o patrimônio cultural num mundo pós-guerra.

Segundo Vicente, a cultura popular nacional está passando por redefinições que tendem a acompanhar as transformações do contexto sociocultural brasileiro. “A tecnologia da informação é um dos instrumentos mais importante para se trabalhar o folclore e a cultura popular. É de fundamental importância. Está ajudando e vai ajudar muito mais a salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro.”

Pesquisador de cultura popular e afro-brasileira, Nelson Inocêncio, professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasília, destaca a boa relação entre a tradição e o novo. Ele acrescenta que a cultura popular não está parada no tempo nem presa à práticas e tradições do passado.

Tecnologia

“As ferramentas tecnológicas devem existir também para contribuir com o conhecimento de toda atividade cultural e artística. Então, vejo com muitos bons olhos. Em sala de aula, já mostrei para os alunos que essas possibilidades existem. Trouxe um vídeo que era um cordel transformado em desenho animado. Uma coisa não está lá e outra cá. Você pode estabelecer convergência entre o que há de tradição na cultura popular e o novo, essa tecnologia que pode nos servir.”

Mas nem todos encontraram o caminho das teclas. Apesar de manter um perfil no Facebook, o mestre da Folia de Reis Sagrada Família da Mangueira, Hevalcy Sylva, afirma que, por enquanto, a tecnologia não conseguiu favorecer o grupo.

“Pode ser que futuramente surja alguma coisa do gênero para a folia. A Folia de Reis Sagrada Família da Mangueira é um dos folguedos retratados no Mapa de Cultura do estado do Rio de Janeiro  e reúne 120 documentários e 8 mil fotos, divididos em 3,5 mil verbetes. O levantamento abrange os 92 municípios do estado, com informações sobre as categorias Espaços Culturais, Agenda Fixa, Gente, Patrimônio Material, Patrimônio Imaterial e Destaques.

Cultura popular atualizada

Entre 26 e 31 de outubro, ocorrerá o XVII Congresso Brasileiro de Folclore, em Belo Horizonte, organizado pela Comissão Nacional. Segundo Severino Vicente, um dos focos do encontro será atualizar a Carta Nacional do Folclore, que teve a primeira versão lançada em 1951 e a segunda em 1995.

“As duas têm conteúdo muito bom, mas nós achamos que está na hora de fazer uma releitura, porque as coisas caminham tão rápidas que temos que acompanhar. A Carta do Folclore Brasileiro é o instrumento da Comissão Nacional de Folclore que não dita norma, mas orienta como se trabalhar o folclore e a cultura popular em um mundo em transformação.”

Conforme Severino, o que deve ser incluídos na carta são as matrizes culturais que não tinham sido contempladas. “As matrizes culturais alemãs, italianas, que são trabalhadas no Sul e Sudeste do país, são contempladas por uma coisa chamada de aceitação coletiva, que é um dos pontos importantes do folclore brasileiro. É aquilo que o povo viu, fez, faz, aceitou e tomou como seu. Faz parte do contexto geral do folclore e da cultura popular brasileira. A tradicionalidade, a dinamicidade, a antiguidade e a aceitação coletiva sustentam o folclore.”

Se na carta de 1995 havia a preocupação com a influência da comunicação de massa, agora serão incorporadas as novas tecnologias benéficas para preservação e difusão das manifestações culturais. “Há esse processo que a gente chama de hibridação cultural, o que é uma realidade no contexto do folclore e da cultura popular brasileiros. Uma depende da outra, uma se apropria da outra. Uma se alimentando da outra. Hoje em dia a cultura popular canta isso”, afirma Vicente.

Coordenadora do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, Elisabeth Costa destaca que a cultura popular se transforma a todo momento. O centro é ligado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é a única instituição pública federal que desenvolve e executa programas e projetos nessa área.

O carnaval é considerada uma tradição importadaArquivo/Tânia Rêgo/Agência Brasil
Ela lembra que grandes festas brasileiras, como o carnaval, são tradições importadas e que o haloween americano já está incorporado à cultura nacional. “No Brasil, virou uma grande festa à fantasia. Os adultos se vestem de esqueletos, demônios e coisas mais macabras, mas nas escolas as crianças usam fantasias de Emília, Power Ranger, Peter Pan, entre outras. Imagino que, entre 20 e 30 anos, a festa será exclusivamente brasileira. Vamos incorporar mais uma oportunidade para festejar.”

O professor Nelson Inocêncio lembra a necessidade de se tomar cuidado para que a globalização não vire um “globaritarismo” cultural. “Quem é que participa e como participa do projeto de globalização? Não queremos ser expectadores. Queremos ser produtores, participar do processo global. Aí sim, estaremosr falando de uma globalização no sentido mais democrático.”

Folclore ou cultura popular?

Apesar de muito usados como sinônimos, Inocêncio diferencia os termos folclore e cultura popular. Segundo ele, a palavra folclore é uma construção ideológica para dar uma hierarquia aos diferentes tipos de arte. “O conceito de folclore foi constituído pela elite europeia do século 19, que, para não tratar o universo cultural dos camponeses e depois dos povos colonizados na África e na América Latina, resolveu denominar a produção cultural desses povos como folclore, numa maneira de criar uma classificação e ao mesmo tempo uma hierarquização.”

O professor questiona a existência de dois nomes para definir o mesmo fenômeno. “O Ocidente definiu o que era religião. O que não era, virou crendice. O Ocidente definiu o que era língua e os outros povos falavam dialetos. Então, na perspectiva do mundo ocidental, desde a era colonial, a arte era o que o Ocidente produzia e o que os povos não ocidentais produzia era artesanato. Tudo isso é uma construção ideológica.”

inocêncio diz que é preciso superar o limite que estabelece a ideia da “alta cultura” e da “baixa cultura”, que supervaloriza a arte chamada erudita, em detrimento da arte popular. “São problemas que precisamos superar, de modo a não ficarmos distantes da aspiração de uma sociedade democrática de fato, em que a gente valorize e respeite todas as possibilidades, todas as formas culturais. Prefiro usar o conceito de arte e cultura popular, porque estou admitindo que se trata de cultura e também de um universo em que existe uma produção artística com sua especificidade.”

Sobre a importância de se comemorar o Dia do Folclore, Inocêncio destaca que se trata da dimensão simbólica da questão. “Ter um dia para pensar sobre tradição e cultura popular no Brasil é fundamental."




Projeto Tamar completa 35 anos com nova geração de tartarugas marinhas

Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil Edição: Graça Adjuto

grafico.jpgProjeto Tamar
O Projeto Tamar comemora nos dias 26 e 27, no Oceanário de Aracaju (SE), 35 anos de existência, com a soltura de filhotes de tartaruga na Praia da Atalaia, na capital do estado.

Na avaliação do coordenador nacional do projeto, o oceanógrafo Guy Marcovaldi, o Tamar está comemorando “muito mais do que um aniversário. É uma nova geração de tartarugas marinhas que apareceu no litoral brasileiro”. Isso se concretizou agora, ao se completar os 35 anos porque, conforme explicou, as estatísticas são feitas de cinco em cinco anos.

“O número de tartarugas, que vinha subindo aos poucos a cada cinco anos, no último quinquênio deu um pulo radical”. Isso se deve, segundo Marcovaldi, a uma nova geração de tartarugas que estão reocupando as praias brasileiras. O número evoluiu de 4,5 milhões de filhotes por ano, entre 2005 e 2009, para 8,4 milhões/ano. “Dobrou, praticamente”.

Uma nova geração de tartaarugas reocupa as praias brasileirasProjeto Tamar/Divulgação
Para o próximo quinquênio, os planos são “continuar firme e forte na praia e confirmar que essa geração vai seguir ativa, saudável e se reproduzindo, afastando cada vez mais as tartarugas da ameaça da extinção. Ainda não chegamos lá, mas vamos chegar”, afirmou Marcovaldi.

A programação comemorativa inclui, além da soltura de filhotes de tartaruga marinha, apresentação gratuita de grupos folclóricos e de teatro, e show do cantor Milton Nascimento com o Dudu Lima Trio. O Projeto Tamar é patrocinado pela Petrobras há mais de três décadas.


Muçulmanos estão entre as principais vítimas de intolerância religiosa no Rio

Flávia Villela - Repórter da Agência Brasil Edição: Armando Cardoso

Representante da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio, Fernando Celino ora ao lado de mulheres muçulmanas na Mesquita da Luz Fernando Frazão/Agência Brasil
Insultos, cusparadas, pedradas e ameaças de morte são algumas das denúncias de agressões contra muçulmanos no Rio de Janeiro nos últimos meses.

Depois dos adeptos das religiões de matriz africana, os seguidores do islã são os que mais sofrem com a intolerância religiosa no estado, segundo o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos e Assistência Social.  Desde janeiro, pelo menos uma denúncia é recebida mensalmente. A estimativa é que haja 2 mil muçulmanos vivendo no Rio.

Os números destoam dos demais estados do Brasil. Apenas cinco denúncias de Islamofobia foram feitas ao Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. As mulheres, mais facilmente identificadas nas ruas pelo uso do véu, são as principais vítimas de violência.

A aeromoça Ana Cláudia Mascarenhas, 43 anos, levou um soco de um homem após ser xingada de terrorista em pleno centro da cidade.

Muçulmanos estão entre as principais vítimas de intolerância religiosa no Rio. A aeromoça Ana Cláudia Mascarenhas relata casos de agressão em entrevista na Mesquita da Luz (Fernando Frazão/Agência Brasil)Fernando Frazão/Agência Brasil
“Fui fazer exame médico e notei que uma pessoa me seguia. Ele parou atrás de mim, começou a me xingar e a dizer que odiava terroristas. Fiquei quieta, pois não sou terrorista. Quando o sinal abriu, ele me puxou pelo braço, repetiu que odiava  terrorista e me deu um soco no rosto. Saí correndo como louca, sem olhar para trás. Se às 7h, com toda aquela gente na rua, ele fez isso, não gosto de imaginar o que faria se eu reagisse ou respondesse”, afirmou Ana Cláudia.

Um dos casos denunciados ao Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos foi um trote universitário com uma estudante muçulmana. Colocaram fogo no hijab [véu] da menina, que acabou tendo o couro cabeludo queimado.

A coordenadora do centro, Lorrama Machado, lamentou que, durante um curso de formação para peritos criminais da Polícia Civil sobre o tema, um agente tivesse comentado que pessoas como a menina mereciam morrer.

“A equipe ficou em choque. Por sorte, outros colegas do perito o contestaram e vimos que era uma posição isolada. Mas esse policial, agora formado, pode um dia ser responsável por analisar um crime contra um muçulmano”, disse Lorrama. “Que tipo de laudo ele dará com essa opinião sobre muçulmanos? Por isso é importante informar e conscientizar”, acrescentou.

A Lei 7.716, de 1989, protege fiéis de todas as crenças, prevendo cadeia para quem cometer crimes de intolerância religiosa. De acordo com o assessor de Comunicação da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro (SBMRJ), Fernando Celino, muitos policiais não são treinados para identificar crimes de intolerância religiosa.

Segundo Celino, uma muçulmana que frequentava a mesquita já fez dois boletins de ocorrência contra o vizinho que a ameaçou de morte mais de uma vez, mas os policiais tratam o caso como briga de vizinho. "Por isso, o assédio continua. Há muitas delegacias que tipificam um caso desse de forma errada, como calúnia, injúria ou qualquer outra coisa, sem dar a real importância, tratando como um crime menor.”

Fernando Celino informou que outro caso de intolerância ocorreu no início do ano, quando um motorista de ônibus expulsou a passageira, dizendo que não transportava mulher-bomba. Também neste ano, uma professora de inglês teve o emprego ameaçado por pais de alunos que pediram ao dono do curso para que a demitisse, pois não queriam "mulher de Bin Laden" dando aulas para os filhos.

“Outra muçulmana foi tema de reunião de condomínio. Os moradores queriam a saída dela e de sua família do prédio por medo de que escondessem bombas. Somos um estado muito acolhedor quando o assunto é samba e turismo, mas não aceitamos o novo”, criticou Lorrama. O fato mais recente foi de apedrejamento, seguido de cusparadas a uma moça em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.

Muçulmanos estão entre as principais vítimas de intolerância religiosa no Rio. A atendente de telemarketing Ana Carolina Jimenez relata casos de agressão em entrevista na Mesquita da Luz (Fernando Frazão/Agência Brasil)Fernando Frazão/Agência Brasil
A atendente de telemarketing, Ana Carolinha Jimenez, 22 anos, também passou pela humilhação de ser atingida por uma cusparada. “Estava no ponto de ônibus. Alguns jovens no ônibus começaram a falar bobagem e a me xingar. Quando o ônibus partiu, eles cuspiram. Senti uns respingos, limpei e continuei olhando para frente.”

Se as agressões físicas não são rotina, o desrespeito é diário. “Ouço risadas pelo menos uma vez por dia. As pessoas apontam, se cutucam. A maioria acha que nem somos brasileiras. A primeira coisa que falam é: 'volta para seu país'”, disse Ana Cláudia.

De acordo com a coordenadora do centro, mais de 90% das vítimas são brasileiras natas, que se converteram ao islamismo na idade adulta.

Mercado de trabalho

O preconceito também é um obstáculo para as mulheres no mercado de trabalho. Ana Carolina passou por cinco entrevistas e em todas a retirada do véu durante o trabalho era pré-condição para a contratação. “Fiz vários cursos de especialização em secretariado executivo e sou fluente em inglês. As pessoas gostam do meu currículo, mas querem que eu tire o véu, mesmo eu afirmando que ele não atrapalha meu desempenho. Para mim, é como seu tivesse de trabalhar de sutiã. O véu não é um acessório para a cabeça.”

Após mais de 100 currículos distribuídos e um anos depois, ela conseguiu emprego como assistente de telemarketing. “Para mim, é frustrante, mas sou grata a essa oportunidade, pois estava precisando.”

Ana Cláudia trabalha sem o véu a contragosto. Como está na empresa há muitos anos e essa é a principal renda da família, não tem como abdicar do emprego. “A vestimenta faz parte da religião. Até tentei levar isso adiante, mas sou a única muçulmana na empresa. Saio do avião e coloco o véu. Para mim é muito difícil.”

Dossiê

As denúncias se intensificaram em 2015, de tal modo que, em julho, o centro encaminou aos ministérios Públicos federal e estadual um dossiê elaborado pela SBMRJ sobre casos de islamofobia pela internet. O documento também foi entregue à Polícia Civil e Delegacia de Crimes de Internet e à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. A Polícia Civil e o Ministério Público já começaram a investigar o caso.

No documento, são denunciados páginas e vídeos na internet que atacam a religião islâmica com inverdades sobre Maomé, principal profeta do Islã. Há fotos de muçulmanos brasileiros, acusados de terroristas. Ainda segundo o dossiê, a maioria das páginas afirma que o terrorismo é algo intrínseco ao islã.

Conforme o dossiê, em uma das páginas, a circuncisão é descrita como mutilação imposta pelo iIslã às mulheres, "quando, na verdade, é recomendada pela religião aos homens". Em outra página, há uma referência inexistente no Alcorão de que o islã permite o estupro. Segundo a SBMRJ, esse tipo de iniciativa contribui para que mulheres muçulmanas sejam agredidas.

Coordenador de Diversidade Religiosa do governo federal, Alexandre Brasil Fonseca informou que o Ministério da Justiça, em pareceria com outros ministérios e órgãos do governo, já se mobilizou para apurar as denúncias.

“O caso está sendo investigado por um grupo de trabalho de combate a crimes de internet. Como Estado, é importante garantir essa atividade religiosa, assim como combater as ações de preconceito e discriminação, que, infelizmente, temos notificado.” Fonseca destacou que cerca de 35 mil pessoas se declararam seguidores do islamismo no Censo de 2010.

O governo do Rio lançará uma campanha até o fim do ano para combater atos de intolerância e violência contra muçulmanos. A campanha é fruto de uma articulação entre as secretarias de Direitos Humanos e Assistência Social e das Mulheres e do Trabalho.

“Prezamos muito a paz, a confraternização e o bom relacionamento com as pessoas, o contrário do que dizem do islã. Respeitamos todos, mas não somos respeitados”, disse a jovem Ana Carolina.

"Temos uma ótima relação com todas as religiões. E temos um interesse em comum, que é o direito constitucional à liberdade de crença. Não pedimos nada além disso", concluiu Fernando Celino.


Mais de 60 mil pessoas morreram no maior manicômio do Brasil

Manuela Castro – Repórter da TV Brasil Edição: Lílian Beraldo

Ao longo do século passado, a única solução para pessoas com transtornos mentais era o isolamento em manicômios. O maior do Brasil foi o Colônia, que começou a funcionar em 1903, em Barbacena, Minas Gerais. Lá, pelo menos 60 mil pessoas perderam a vida numa trajetória de quase um século de desrespeitos aos direitos humanos.

Fachada do Colônia, conhecido com o maior hospício do Brasil. Hoje, o local abriga o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena e conta com 171 pacientes em regime de internação de longa permanênciaReprodução/TV Brasil
Hiram Firmino foi um dos poucos jornalistas a entrar no hospício, no fim da década de 1970. Ele escreveu diversas matérias com denúncias sobre os horrores que viu no Colônia. “Mulher é um símbolo de beleza. Para mim, foi chocante ver as mulheres do hospício no chão, sujas, igual bicho, quase todas nuas, no meio de fezes, urina, rato, dormindo em capim. Agora ver as crianças no mesmo estado, com um pneu velho o dia inteiro, que era a única coisa que tinham para brincar, foi ainda pior”, desabafa o jornalista.

A terapia por meio de choques era usada, muitas vezes, como poderosa arma de punição contra os que não se comportavam. Sueli Rezende morreu no regime de internação. A filha, Débora Soares, 30 anos, foi adotada. Ao buscar informações sobre a mãe biológica, Débora ficou horrorizada com o que viu nos prontuários. “Minha mãe chegou a receber quinze sessões de choque em um mês, era dia sim, dia não, algo intolerável. Ela se rebelava e fazia de tudo para não levar o choque: corria, ia pro banheiro, tentava derrubar o aparelho e lutava com os funcionários”.

A jornalista Daniela Arbex fez uma vasta pesquisa sobre o Colônia. Localizado em Barbacena (MG), o local ficou conhecido como o maior manicômio do BrasilReprodução/TV Brasil
A jornalista Daniela Arbex fez uma vasta pesquisa sobre o Colônia. Ela escreveu uma série de reportagens e um livro sobre o assunto. Daniela descobriu que o esgoto corria a céu aberto no hospício e muitas vezes servia de alimento. “Você via as pessoas definhando. Isso já é um indício muito forte de que não havia alimentação. Os funcionários da época e os próprios pacientes contaram que não havia alimento suficiente, que eles passavam fome, que, muitas vezes, havia uma sopa rala”.

A maioria dos doentes não tinha direito a cama. Dormiam em capins, agarrados uns aos outros para espantar o frio das serras geladas de Barbacena. A superlotação do hospício era a justificativa para o descaso. Em 1960, em um lugar projetado inicialmente para 200 pacientes, havia 5 mil. Muitos que passavam por tudo isso nem tinham transtorno mental.

“A gente encontrou histórias de pessoas que foram mandadas pro hospital para esconder uma gravidez, porque tinham perdido seus documentos ou porque o marido resolveu ficar com a amante”, constatou Daniela.

Encontros e Desencontros

Nos antigos manicômios, as mulheres que engravidavam não podiam ficar com os filhos. As crianças eram adotadas ou iam para orfanatos. A secretária Débora Soares nasceu dentro do hospício de Barbacena. Foi adotada por uma funcionária do lugar. Já adulta, Débora descobriu que a mãe biológica se chamava Sueli Rezende e que ela poderia estar internada no hospital psiquiátrico da cidade. Ao chegar ao local, ficou sabendo que a mãe havia morrido há um ano.

Agora, Débora quer descobrir o paradeiro da irmã, a segunda filha que Sueli teve no hospital. “Ela foi entregue para adoção. Eu só sei que nasceu no dia 15 de junho de 1986, é dois anos mais nova e o nome que minha mãe escolheu pra ela foi Luzia Rezende. Mas devem ter trocado o nome”.

Ao ler os prontuários da mãe biológica no hospital, Débora teve a certeza de que foi muito amada por ela. “As únicas lembranças que minha mãe tinha eram a cor de pele das filhas, uma morena e outra branquinha, e as datas de nascimento. Quando eu fiz 8 anos, ela teve uma crise e ficou pedindo para saber como era o rostinho da filha”, revela Débora.

O bombeiro João Bosco, 48 anos, e a mãe Geralda Siqueira, 66 anos, ex-interna do hospício de Barbacena, também foram vítimas da política de afastamento entre mães e filhos nos manicômios. Geralda ainda foi vítima do isolamento no manicômio sem nunca ter tido transtorno mental. Órfã desde criança, ela foi morar aos 11 anos numa casa de família para ser empregada doméstica. Foi estuprada várias vezes pelo patrão, até ficar grávida. Para se livrar do problema, o patrão a levou para o hospício. “Eu levei o maior choque porque eu nunca tinha visto aquilo. Era horrível ficar naquela prisão, no meio daquela bagunça, sujeira, com uma porção de gente doente”, desabafa a ex-interna do hospício.

Depois que o filho João Bosco nasceu, Geralda conseguiu alta do hospício. Foi atrás de emprego e deixou o filho com religiosas que trabalhavam no local. Um dia, quando voltou para visitá-lo, a criança não estava mais lá. Geralda ficou desesperada e começou a cobrar explicações sobre o paradeiro do menino.

“Como eu fiquei nervosa, os funcionários me pegaram pelo braço e me levaram para a sala de tratamento com eletrochoque. Levei um choque enorme e fui ameaçada de ficar internada para sempre no hospício caso voltasse lá atrás do meu filho. Nunca mais tive notícia dele”.

João Bosco foi para um orfanato, depois para a Febem (local onde se internavam jovens em conflito com a lei) e finalmente passou no concurso do Corpo de Bombeiros. Os colegas da corporação é que tentaram descobrir o paradeiro da mãe de João e conseguiram encontrá-la em 2011. De lá pra cá, os dois não se desgrudam. “Por mais que os problemas da vida levem cada um para um lado, existe um laço invisível, enlaçado por Deus, entre a mãe e o filho. Isso ninguém rompe. Quando nos reencontramos, voltamos à nossa origem”, disse João Bosco.

O programa “Loucura e liberdade: saúde mental em Barbacena” foi transmitido pelo Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, e está disponível na internet.

Com reforma, número de leitos psiquiátricos no SUS diminuiu 40%

Manuela Castro – Repórter da TV Brasil Edição: Lílian Beraldo

Em nove anos, o número de leitos psiquiátricos no Sistema Único de Saúde (SUS) diminuiu quase 40%. Em 2006, havia 40.942 leitos em 228 hospitais psiquiátricos. Atualmente, existem aproximadamente 25 mil leitos psiquiátricos do SUS em 166 hospitais no país.

Essa redução vem ocorrendo desde 2001, com a aprovação da reforma psiquiátrica no Congresso Nacional. A lei determina a extinção progressiva dos leitos para internação de longa permanência em hospitais psiquiátricos.

O autor do texto, o ex-deputado Paulo Delgado, afirma que essa legislação reflete uma vontade da sociedade. “O que as pessoas desejam é que os médicos atendam em liberdade, que não isolem, que encontrem um caminho. Se não for possível a cura, que seja um tratamento mais humano, que possa dar conforto ao paciente e tranquilidade à sua família”, esclarece Delgado.

Para o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, o ideal é fazer o tratamento no seio da família, mas existem casos que exigem internação. "Como dizer que não precisamos internar em hospitais psiquiátricos? Claro que precisamos. Não se acaba com uma doença por decreto. Há os quadros mais graves", defende Antônio Geraldo.

Outro desafio da saída dos pacientes dos hospitais é a retomada do convívio familiar. José Horácio, que não sabe ao certo a idade que tem, tenta a reaproximação com os parentes desde 2013, quando saiu da internação em Barbacena (MG). Primeiro, ele foi morar com a mãe em Araçuai, também em Minas Gerais, e continuou o tratamento no Centro de Atenção Psicossocial (CAPs), estrutura criada para atender a pessoas com transtorno mental e substituir a internação.

Depois de mais de trinta anos internado, entretanto, ele não se adaptou a nova vida e acabou agredindo a própria mãe, dona Sebastiana Farias. “Ele tem razão em me estranhar, não foi criado por mim, passou a vida toda no hospital”, desabafa Sebastiana.

José Horácio tenta a reaproximação com os parentes desde 2013, quando saiu da internação em Barbacena (MG) Reprodução/TV Brasil
Hoje, José Horácio mora em uma residência terapêutica, local adaptado para pessoas com transtornos mentais, e visita a mãe de vez em quando. O sonho dele é voltar para o hospital. “Eu estou com saudades de lá. Não quero ficar aqui não. Aqui não tem nada para fazer”, afirma José Horácio.

Antes das discussões do projeto de lei da reforma psiquiátrica, que tramitou no Congresso por doze anos, diversos movimentos sociais se mobilizaram pela humanização do tratamento e pelo fim dos manicômios, nos anos 1970. Depois de quase quarenta anos de luta antimanicomial, o Ministério Público ainda recebe denúncias de maus-tratos, internações compulsórias e estruturas precárias em hospitais e clínicas psiquiátricas que atendem pelo SUS. Em Barbacena, Minas Gerais, cidade onde centenas de pessoas permanecem no regime de internação de longa permanência, há 82 investigações em andamento no Ministério Público, na área de saúde mental.

Residências Terapêuticas

Um dos principais símbolos da humanização na psiquiatria é uma casa. O direito básico do homem à moradia foi devolvido a milhares de brasileiros com transtornos mentais por meio do projeto das residências terapêuticas, que começou no ano 2000. A ideia era tirar os pacientes dos antigos manicômios para que eles voltassem a ter contato com a sociedade, em um lar com cuidadores e o atendimento de psicólogos e assistentes sociais.

Atualmente, existem 620 residências terapêuticas em todo o país. Em Barbacena (MG), onde havia o maior hospício do Brasil, são 32 residências, coordenadas pela assistente social Leandra Vidal.

“Buscamos a autonomia do ex-interno. Fazemos de tudo para que eles passem a desejar as coisas, para que tomem as rédeas da própria vida. Antes, nós saíamos para comprar roupas para eles, mas hoje já escolhem o que gostam e vão comprar o que precisam. Também procuramos ensinar noções de economia, para que saibam gastar o benefício de prestação continuada que ganham do governo”, explica Leandra.

A assistente social Adriane Oliveira trabalha nas residências terapêuticas desde o inicio do projeto. Ela afirma que a maior dificuldade que enfrenta é o preconceito. “Nós já tivemos situações de vizinhos que reclamaram de morar perto de pessoas que vieram de um hospital psiquiátrico, porque elas poderiam ser agressivas. No início do projeto, inclusive, nós tivemos dificuldade de conseguir as casas para alugar, porque as imobiliárias não queriam os ex-internos nas residências”.

Os moradores têm uma vida agitada. Eles participam de oficinas em centros de convivência, pedem para comemorar os aniversários com bolo e guloseimas e adoram cuidar da casa. Geraldo Antônio da Silva, 62 anos, passou 33 anos internado num manicômio. Agora ele se sente livre para fazer o que gosta. “Eu tenho cachorro, tenho galinha e cuido das minhas plantas. Também tenho uma hortinha que eu adoro”, afirma sorridente.

Rosalina de Oliveira diz que realizou um dos seus grandes sonhos: morar em uma casa sem ter que dividi-la com muita genteReprodução/TV Brasil
Em uma das residências terapêuticas de Barbacena moram Adelino Rodrigues, 68 anos, diagnosticado com epilepsia, e Nilta Chaves, 55 anos, que sofre de catatonia. Uma união que para muitos era improvável, mas que já dura quase dez anos. Eles juraram amor eterno diante do altar e ganharam uma festa de casamento. Ex-internos do hospício, aprenderam juntos a enfrentar preconceitos, a cuidar um do outro e da própria casa, e a amar. “A gente nunca briga, nunca xingamos aqui em casa, é excelente”, orgulha-se Adelino.

Outra história cheia de conquistas é a de Rosalina de Oliveira, 57 anos. Ela já realizou os dois grandes sonhos de sua vida. O primeiro foi morar em uma casa sem ter que dividi-la com um monte de gente, como acontece normalmente nas residências terapêuticas. O segundo, e mais importante, foi encontrar a filha que teve durante o período de internação no hospício. Nessas instituições, as mães não podiam ficar com as crianças, que iam para orfanatos ou para a adoção. A própria filha de Rosalina, hoje adolescente, foi atrás da mãe biológica. Hoje, a alegria de Rosalina é receber a menina em casa. “Ela é uma gracinha. Vem me ver sábado e domingo. Gosto muito da minha gracinha”. Rosalina finalmente se libertou das injustiças que, por décadas, aprisionaram os supostos loucos.

O programa “Loucura e liberdade: saúde mental em Barbacena” foi transmitido pelo Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, e está disponível na internet.